31 março 2008

SER SOLIDÁRIO

Há momentos de grandes palavras e outros em que a acção valerá por milhões daquelas.
É neste sentido que peço a quem me lêr que percam uns segundinhos do vosso precioso tempo e acedam a este endereço:

http://www.carolinalucas.com/

e percebam a razão de uma qualquer solidariedade, mesmo que de uma simples palavra de alento ou encorajamento.
Fomos pais, somos avôs ou qualquer outro elo familiar e por isso mesmo somos de condição maior... a humana.
Percebam o enorme esforço e sacrifício destes pais e tornem mais titânica a sua determinação em recuperar para si, a sua Carolina, na posse de todas as faculdades físicas motoras, para que deixe de ser uma criança diferente.

Bem hajam

Próspero

04 março 2008

SETÚBAL, CABISBAIXA...

Politicamente, sabemos que o País atravessa uma das maiores (se não a maior) crises de sempre.
A credibilidade dos nossos políticos baixou, em e há muito, a fasquia do admissível. A capacidade destes em  mobilizar convicções é directamente proporcional à sua premente falta de imagem, mística, seriedade e halo de verdade que os deixou de envolver faz muito tempo, dando lugar a um manto de denso (duvidoso) nevoeiro que os enclausura. Anjos com pés de barro, figuras ténues e amusas que nesta condição fazem "ouvidos moucos" aos protestos de uma sociedade, de um e de todos.
Quem anda pelas ruas de Setúbal constata isso mesmo.
As pessoas andam de olhos no chão, ora tristes ora acabrunhados ora ainda desiludidos... Dei comigo próprio (de há longos tempos) mecanizado naquele comportamento. Olhos no chão.... Mas não só por isto...
A juntar ao que acima aludo, concluo que as pessoas têm que andar de olhos no chão também por causa de uma "política", a do comportamento, social, de um e de todos... Pois não é que em qualquer rua desta linda cidade nos habilitamos a moldar as solas dos sapatos nas massas fedorentas dos dejectos dos cãezinhos, caso olhemos de frente e em frente ??!!! Pois não é que "impunemente" as pessoas passeiam os seus animais sem o devido saquinho para os "cócós" e sem o devido respeito pelo transeunte, pela saúde pública, e sem respeito por si mesmo ??!!!
A estes, nomeio-os ainda de "chicos espertos" !! Saiem das suas portas e para os animais não lhes sujarem os "domínios" postam-nos no passeio do prédio ao lado, no carro do "outro" (enfim em nada que seja seu) no jardim onde as crianças depois brincam, os idosos descansam e onde existe até, pasme-se, um recanto próprio para os ditos, saquinhos para os ditos, etc.... mas os animais não aprendem com a prática e experienciação. No dia seguinte lá estão com os seus cãezinhos a repetir os mesmos actos.
Enfim, políticas !!!
Analogias?? Muitas.
Os políticos descredibilizam-se com as suas atitudes ?? Os cidadãos igualmente !!
A Sociedade não é capaz de reagir às adversidades e imprudências governativas ??? Os cidadãos, igualmente são incapazes de exigir do seu próximo, do seu vizinho, todo o respeito a que têm direito no usufruto das partes comuns do seu dia a dia.
Os políticos delapidam o dinheiro de todos nós com projectos e obras que nunca se erguerão ?? Os cidadãos, igualmente são incapazes de "desinvestir" nas eminências pardas que pululam nos mais diversos cargos publico-políticos !!!!
Nos idos de 80 do século passado alguém, por exemplo, meteu o "socialismo" na gaveta... Nos idos de ontem, os de agora, fecharam a dita gaveta e deitaram a chave ao rio, não vá ninguém encontrá-la.
Por fim, talvez a mais contundente das analogias...
Os extremos tocam-se...
Os políticos só fazem "trampa" ??? Os donos dos cãezinhos também !!! E os pobres cachorros não têm culpa alguma... e ambos os fazem fora dos seus "domínios" não vá a coisa cheirar mal, mesmo muiiito mal.

E o burro sou eu ?? !!



Blogged with Flock

27 fevereiro 2008

A FORÇA DA PALAVRA - MENSAGEM DIVINA - INUNDAÇÃO II

Na porta de um estabelecimento da Baixa de Setúbal está afixada uma folha com os seguintes dizeres:

DEUS TARDA....
                            MAS NÃO FALHA !!!!!!

Sempre me intrigou esta folha. Porque razão teria aquela papelaria esta mensagem ?? Acólita de alguma religião ?? Cristã, Maná, Jeová, Adventista ?? etc,etc,
Dei comigo a cogitar na força das palavras e das mensagens que destas emanam... Por certo que na génese desta pictórica ou bíblica mensagem estará o voto do mais profundo optimismo, assim o declara o sentido frásico da construção... Um mar de esperança e crença em tão curtas palavras !!!!
Mas....
Há dias e após a lastimosa inundação que devassou o centro de Setúbal, passei de novo por aquela rua e de repente (não se fez luz mas...) sobressaltei-me ao lêr, inconscientemente sempre que lá passo, esta misteriosa folha...
Tão certo quanto as fortes enxurradas daquele dia, o sentido da frase deixou de existir !!!!! Uma outro me me sobressaltou !!!!

- Que terão eles feito para merecer tão duro castigo divino !!!!!

Fico sem resposta ao tema mas deito por terra aquela primeira interpretação.... Grande castigo !!!!!

(Ainda hoje a casa está fechada a recuperar dos estragos....)

Grande castigo !!!!!!!




Blogged with Flock

22 fevereiro 2008

INUNDAÇÃO I


Esta é a praceta das traseiras de minha residência e a foto tirada, claro, da minha varanda. Esta é a inundação que lesou centenas e centenas de pessoas, quer nos seus automóveis, nos seus estabelecimentos, nos seus haveres e principalmente na sua saúde, tais as aflições por que passaram.
Segundo relatos confirmados, uma senhora desmaiou, caíu na torrente e foi depois encontrada por debaixo de um automóvel, já cadáver. Isto passou-se em Azeitão.
Esta é a responsabilidade que não foi assumida por quem de direito, assistindo-se a um vergonhoso lance de ping-pong entre autarquias e governo central, que entre si dirimiram acusações e argumentos, na imprensa, perante uma plateia ávida de arena e sangue esperando que, finalmente e no próximo lance se decepem cabeças e as almas acabem na "fogueira" da sua (nossa) indignação.
Puro engano.
Ninguém vai ser condenado, culpabilizado e levado à expiação dos seus actos. Outras "inundações" já o provaram através dos tempos. Uma houve, até, que viu um Ministro casar com a Culpa, solteirona já cheia de verrugas mas com hímen, porque esta não podia "morrer" naquele virginal estado. Entre-Os-Rios foi o local da boda :(( A suite para a lua de m(f)el foi Castelo de Paiva e o Rio Douro os seus lençóis... De permeio uma cama (maldita ponte), paradoxalmente a mais inocente de tudo isto, que cumpriu até ao fim a despeito dos vários "sinais" de fadiga e fraqueza demonstrados ao longo dos tempos.
Por lembrar ficam outras "inundações" de carácter moral, na Justiça, no Social, em todas as casas (pias) possíveis e imaginárias, no Futebol, Na Banca, em todas as Lavandarias onde os "Colarinhos brancos" campeiam imaculados, brilhantes, sem nódoas, Nos trajectos de aeroportos e tgv's, em rota de colisão com os verdadeiros interesses dos cidadãos, tudo com traiçoeiras "derrapagens" e "desvios" devidamente explicados pela engenharia dos números...
Adiante, que atrás vem gente !!!!

QUE MAIS NOMES ???

Recordo-me que no ano passado escrevi sôbre a particularidade do meu nome deixando no ar a última interpretação... "Inhocópio" para Próspero, pensando eu não ser possível pior do que isto!!
Mas não... Estava enganado...
Ontem, no mesmo local "do crime" :) a mesma pessoa :( em situação idêntica, disparou: - Olhe lá senhor "Nhoscofre" ?!! Tire agora a fotografia à menina ( a nossa netinha, no seu colo ) qu'ela está distraída !!!!
E pronto, aconteceu.
Para a próxima vez que nos encontremos até tremo só de pensar no que me chamará !!! É que à força destes incidentes ;) temo que eu próprio me venha a esquecer do meu próprio nome cujo nome próprio ainda tem o Manuel, no qual já penso como escapatória ou bóia de salvação (então senhor Manuel como está??) ...

||||||
/""""\
\0-0/
()

10 fevereiro 2008

PESCA I

No comentário anterior ficou assente que para 2008 as licenças ainda não têm data marcada de emissão. Os resultados da safra anterior não foram nada animadores e por isso mantive-me na pesca, mas com outras artes.
Esta é a minha nova forma de pescar. Em tudo é uma cana (mas metálica) com um íman na ponta, em vez de anzol, altamente eficaz no peganço e com um poder de atracção bem mais forte e aqui, quando "pica" nunca falha.
As águas essas, são outras. As ruas, passeios, becos e vielas de Setúbal, são o meu mar e o meu rio, em vez de bote ou amurada há as botas e os sapatos e as vastas marés de "penantes", quilómetros a dar c'um pau e acima de tudo, há sempre safra, tantos e tais pesqueiros, rotulados de jeitosos e daí para cima.
Quais ?? Questionam-se ... !!! Eis alguns, mas não todos...
Paragens de autocarros, esplanadas, cabines telefónicas... (deixo para mim as mais aliciantes, ah ah...ah).
E perguntam vocês?? E as provas!!! Vejam:


11 -Onze- 11 espécimens, os mais variados... Peixe-rosca (2) Peix'anilhas (6) Peixe-lata (2) e ainda... Peix€uro (1). De notar que este último foi quase apanhado no tamanho mínimo, dois cêntimos.
Para reforçar o pormenor, agora, mais de perto:


Como vêm, expectativas alcançadas.
Esta cana já a tenho em ensaios desde 2007, meados de Março... por aí... mas em total secretismo, não fossem as revistas da especialidade bisbilhotar e captar as tais fotos-espias, que deitam por terra os melhores planos.
O ensaio mais espectacular foi o ocorrido em Tróia. Fui lá com uns amigos do Porto (Odete e Neves) para lhes mostrar a revolução paisagística que ocorria (pela mão do Tio Belmiro) e, porque tudo estava em obras (aliás como hoje), quando a dada altura o portento desta cana deu um safanão formidável, desviou-me um olhar para direita, estaleiro fora, para eu ficar grudado num já belo exemplar de um peixe-nota (medida 20 €uros) que batalhava contra o vento e pedia um insistente e dramático apelo, apanhem-me... apanhem-me... E eu apanhei-a (ainda não encontrei íman para papel).
No regresso, lanchámos no franchising das "Tortas de Azeitão" junto ao Quartel do Onze e consumimos o "peixinho" todo, para gaudio daqueles meus amigos que não paravam de exortar as propriedades das minhas novas artes...
Inté...

No regresso

PESCA

Em 2007 tirei duas licenças. Uma de mar e outra para rio, esta com cobertura nacional, fosse eu expandir as minhas actividades pelo país adentro.
De qualquer forma tiveram apenas, isso sim, um único propósito... o de encher os cofres do Estado, a exemplo de outras e outras tantas que não "justificaram" o investimento.
Valeu-me a persistência e voluntariedade dos meus amigos Edmundo e Martins, que fizeram o favor de me acompanhar (ou permitir que os acompanhasse) umas duas ou três vezes a pôr a minhoca de molho (a do anzol... nada de especulações). No fim, o que se aproveitou foi o franco convívio e as inalações iodáticas à beira mar.
Do mal o menos...
Para 2008 ainda não tenho orçamento para as ditas pelo que o Estado, esse pescador de malha finíssima e especialista na arte do arrastão, também "pesca" menos... pelo menos mais tarde :))
Bons lançamentos e aproveitem as "marés"

03 fevereiro 2008

O QUE PODE ACONTECER EM UMA HORA

Colateralmente ao tema desta crónica apenas uma pequena observação... O barco amarelo.
Sei eu quem apreciará a foto, tal como aprecia um carro amarelo, um avião, uma roupa, um tema qualquer em que o amarelo predomine e mesmo até um "casaco amarelo".
Não digo quem mas outros que me lerem saberão de quem falo !!
Agora sim, o tema.
Novembro de 2007, Olhão, em um dia de completa invernia com vento, chuva e frio, cerrado de cinzento até ao anoitecer.
Saímos do parque de campismo para uma ida ao mercado à procura de alimentos frescos e do inevitável "pexinho" para a grelha e depois uma ida à baixinha para a tradicional voltinha para sorver o ritmo do comércio, uma ida á farmácia, mais um totoloto, etc, etc.
Éramo quatro. Os amigos Isabel e Cristóvão e este Próspero mais a sua Cidália apetrechados de impermeáveis, guarda-chuvas e carolice suficiente para enfrentar a intempérie.
Pois no espaço de cerca de uma hora concluimos que Olhão é uma terra que dá dinheiro, por isto:
Depois da mercadagem peguei nas compras e levei-as para o carro enquanto os restantes se entretiam a "ver a banda passar". Logo à saida do mercado, no passeio, com tanta gente a correr de um lado para o outro com uma chuva "pegadinha" havia eu de encontrar uma moeda de 1 cêntimo a olhar p'ra mim... Não me fiz rogado, apanhei-a.
Na moeda "macaca" são dois escudos e dei comigo a pensar... Grandes vidas... já ninguém se abaixa para apanhar uma "negra".
Depois de arrumar as comprar atravessei para o outro lado da rua por ter visto uma farmácia e nela procurar uma pomada de que havia precisão.
No regresso, ao passar por uma esplanada quem me estava a chamar?? Imaginem... a irmã mais velha da primeira moeda, uma outra de 10 cêntimos. Humm, a coisa está a compôr-se... de dois para vinte escudos na dita "macaca".
Ao chegar juntos dos companheiros dei conta da façanha e com a boa disposição que o caso impunha, deixei no ar a frase "isto está a compôr-se"... e fomos baixinha adentro ao resto dos afazeres. Eis senão quando, com alguma destreza, a amiga Isabel apanha do chão outra moeda, esta um pouco mais abonadinha... 20 cêntimos... isso mesmo... mais 40 escuditos.
Não deixamos de rir e glosar com a situação.
- Bom, disse um de nós, agora só falta a Cidália e o Cristóvão cumprir o seu papel e apanhar mais um metal (vil, só por ser pouco, claro) para a coisa ficar mesmo composta.
Neste ponto da conversa vimos uma outra farmácia, onde entramos, por causa da tal pomada. Em boa hora o fizemos. Desabou tamanha chuvada (daquela tocada a vento e grossa) que até fazia fumo na rua, imaginem, e tão persistente foi que esperamos um pouco e quando abrandou, eis-nos de novo na rua.
Sol de pouca dura, com apenas uns passos dados nova descarga (se não pior, pelo menos igual à anterior) que nos obrigou a correr e o sítio que melhor nos pareceu para abrigo, foi uma igreja, para a qual sprintamos.
Pois... aqui deu-se de novo uma situação mui sui generis... Não é que a Cidália também encontrou uma moeda ?? E sabem de quanto ?? Dois €uros.... quatrocentos e tal macacos... assim, de uma rajada, pas, pas !!!!
E por exclusão de partes, entre molhas e gargalhadas, lá sentenciamos: - Agora (e já agora) só falta o amigo Cristóvão fazer o gosto ao dedo e apanhar algo, mas atenção.... por este andar vai ter que ser uma nota, tal a escalada... (risos)...
O resto da manhã passou-a de olhos no chão, a chuva continuou a fustigar as ruas e nós tivemos tema de conversa para o resto do dia por ele não ter encontrado a razão desta recordação.

31 janeiro 2008

Ano novo Vida nova

Poucos, mas estimados e fiéis leitores.
A partir de agora volto à presença do estimado público para dar conta dos estados de alma, dos humores e des(a)humores com que o quotidiano nos preenche os dias, algumas noites (as mal dormidas) isto sem falar das sentenças, bitaites e ditames que enchem por completo os écrans das nossas vidas e condicionam a disposição para o dia seguinte.
Valha a verdade, a natureza das notícias e a omnipresente presença de alguns "artistas", em entrevistas, comentários (e despropósitos) nos formatos conhecidos da caixinha que mudou o mundo, originam e justificam por inteiro a disposição com que as pessoas se levantam e assim se compreende (entre outras) a principal razão de o povo português se levantar e sair para a rua, de semblante carregado e mal disposto e (como soi dizer-se popularmente) a comer "maçãs azedas"... E não é que a "coisa" se estende por e para todos os lados ?? Até quando ??
Bom, adiante.
Para a reabertura do "Fatinitadas" 2008 escolhi um pequeno anúncio colocado numa porta de um estabelecimento em Setúbal, de compra e venda de mobílias ao qual tentei recorrer por mais do que uma vez, sem êxito, dado encontrar-se fechado (diga-se que os meus passeios não se compadecem com os horários de funcionamento) e só ter conseguido essa visita através do telemóvel lá indicado...
Reza assim:

Abrimos quando
chegamos
Fechamos quando vamos
E se você vem e não estamos
é porque não coincidimos.
Volte amanhã...
Que nos encontramos.

A guiza de país adiado este é, possivelmente, o melhor horário possível. Talvez o venha a adoptar mas o certo é que desejo, veementemente, que o meu número de leitores suba em flecha e me sinta gratificado pelos seus comentários e apoios.
Como diz um primo meu ( O Bino da Nélinha ) "serão milhares.... digo-te mais, moço... mais de cem... digo-te !! e eu cá fico para os contar.
Um abraço para todos

Fadalê-Vô






Blogged with Flock

31 março 2007

CÃES III



Não há duas sem três e com esta nota espero terminar a saga, apresentando os "artistas":
Eis o SUTRA... um corredor nato.
Como o outro são novos mas nunca vi um como este raposinho. A sua energia, se fosse transformável em potência daria para ligar as luzes de Santo André durante horas.
De carácter dominante em relação ao outro nunca se deixou secundarizar nas corridas, nas brincadeiras e no "corre-ao-prato", nova modalidade de acertar num prato, não no ar mas quando ainda "estava" a aterrar da mão amiga, para o chão. E os saltos que dava em plena correria, por entre a vegetação ?? Mais de um metro, sim senhor, e em passo de corrida.
Foi também o mais desinibido e curioso do par e também o que rápidamente se adaptou ao nosso usufruto da sua presença. Por último despontavam em si os apetites "sexuais" pelo que, mais por instinto do que evidência física, qual automato, se punha em cima do companheiro e vá de... truca-truca. E não perdia tempo nos treinos, era sempre que podia e se lembrava. Daí o ter sido por mim apelidado de Sutra.
Este amigo aqui é o KAMA, o meu pacholinha côr de palha, que não sei porquê me parece ter artes de coelheiro, se bem que de caça não pesque nada, mesmo nada. Aliás ficou-me a ideia de que estes animais teriam sido destinados para isso, não sei, e se calhar o "amor" por eles terminasse logo aí, no incumprimento de dever.
Calmo e pacato, seguidor de estímulos e iniciativas do seu companheiro, nunca esteve para se consumir. Alinhava nas brincadeiras lideradas pelo Sutra, ficava-se na "concha" quando abordados por outros cães e uma vez, até, se calhar pelo tamanho daquele pastor alemão ( tão novo qanto eles ) guardou os "berlindes" sob a cauda e puxando orelhas para trás desarvorou numa correria até ao parque, interrompendo uma saída ao mar e à areia. Com o passar do tempo ( e da fome ) de quando em vez "mostrava os dentes" na hora da mastiga, mas nada de especial.
Demorou mais tempo a perder medo e a acolher o nosso chamamento e quando o fazia denotava uma desconfiança instintiva, assim como se fosse levar pancada ou castigo certo. Já para o fim, quando o chamava, embora sempre em segundo, já se levantava nos traseiros e "prendava-me" com um saudar de patitas, assim como quer quer dar um abraço, percebem??
De sexo nada queria saber e tanto se lhe dava, como deu, que o Sutra o encavalitasse nos seus gestos iniciáticos, quase imberbes. Olhava para ele de soslaio e embora "sacudido" deitava-se, tal como na imagem, como quem dizia: - Deixa-me ao menos aproveitar o embalo para adormecer, tsst tsst tsst....
E assim encerro a saga de um inesperado KamaSutra de Santo André.



30 março 2007

CÃES II - Solidariedade

O reverso da medalha aconteceu, entretanto.
A princípio éramos nós os que alimentavamos estes cães. Durante a nossa estada no parque foram motivo diário de conversa e comentários. Na aridez do espaço começaram a aparecer "companheiros" ( poucos ) de fim de semana que inevitavelmente se solidarizaram com os animais e... foi bonito!!!!
O casal Reis ficou grudado aos animais. Por ela, Fátima, teria ficado com os dois cães, não fora ter já dois, mais um gato mais coelhos e ainda passarada e sei lá que mais. Antes de abalarem para casa até compraram ração e bolinhos próprios. O Pedro filhote só dizia!!!! Oh mãe...fica lá com eles.... O Reis tentava assobiar para o lado mas sabia o risco que corria ( mais dois inquilinos e por certo não se importaria )... Os amigos Áurea e Manuel deixaram leitinho para os bichos... Até uma funcionaria da manutenção lhes trouxe uns ossitos...
Mas o fim de semana acabou célere e lá voltamos nós a ficar "donos" dos ladinos béu-béus !!! Desta vez para além da nossa ementa ainda tivemos, por uns dias, comida farta e variada.
Chegada a nossa hora de também abalarmos, a custo lá nos despedimos deles e eles... até pareciam que sabiam o que se passava. Remeteram-se ao seu cantinho, pouco efusivos, reservados e a olhar-nos com "aquele" olhar que nos enleia e magoa. Ainda vieram a correr atrás da caravana, até ao portão do parque mas ficaram-se por ali.
Isto foi a 6 deste mês e não lá voltamos ainda. Ficou-nos a ideia de que iriam para o canil, onde os tratavam bem mas.... até quando????
Hoje, regozijamos, pelo menos por um deles. O rapozinho, o castanho, acabou por ser adoptado por um companheiro ( não sei o nome mas conheço-o de vista, bem haja ) que por certo o tratará bem, assim como as suas duas filhotinhas. Foi o que nos disse hoje a Fátima em telefonema de cortesia e cordialidade. Quanto ao côr de palha ( para mim o coelheiro ) teria como destino o canil até ontem, caso não houvesse outro desfecho... Ficamos felizes pelo desfecho de um e tristes pelo adivinhado destino do outro. De qualquer forma ainda temos a esperança de que alguém ainda o adopte, salvando-o de um canil que pode bem ser o seu último lugar.
Obrigado a todos e a eles próprios pelos sentimentos que mobilizaram, levando-nos a acreditar que ainda vale a pena acreditar nos da nossa espécie.

26 março 2007

CÃES I

Estes dois cães foram abandonados. Pequenos de porte mas com uma "alma" tão grande mas ao mesmo tempo tão "humilde" e um amor para dar "tão" incondicional.
Dizem... que os seus donos foram ao parque de campismo num fim de semana e na saída... lá os deixaram ficar entregues a si próprios, num local que, com algum material colocado não tinha ninguém acampado ou aparcado. Um Fevereiro severo afastava os mais audazes de uma estada em Santo André com o mar à porta a encher de ventos e marés.
Chegados ali para passar uns dias fora do rebuliço da cidade foram os primeiros e únicos "companheiros" que nos vieram saudar. Não efusiva nem confiantemente... antes doídos pelo abandono, medrosos ( que tratos levariam?? ) à espera de tudo menos amor, carinho, afecto, mas mesmo assim e sem condição apostados em se darem a mais uns humanos que se calhar os iriam escorraçar de novo, curvando-lhes ( ainda mais ) a sofrida cauda.
Ao vê-los e imaginando que lá se encontravam há uns três...quatro dias... cogitei, mais uma vez de entre tantas.... Como é possível que as pessoas façam esta crueldade ?? E ultimamente parece "estar na moda" abandonar cães e gatos nos parques de campismo !!!!! Mas como é possível não "assumir" a responsabilidade de dar um pouco de protecção a quem tano nos dá??? E de repente caio abruptamente em uma outra constatação... Então, se há pessoas por altura das férias e outras conveniências ( natal e outros que tais ) que abandonam os idosos nos hospitais "esquecendo-se" de os ir buscar após a alta médica e aqui estou eu a admirar-me por terem abandonado estes cães.
E é nesta quase ingenuidade que penso o seguinte... Não têm alma... foi-lhes retirada no momento em que pontapearam para fora do carro os traídos animais...

09 novembro 2006

QUOTIDIANO

Já saturado de estar no Posto de Saúde e após ter cumprido com o compromisso das marcações de consulta, esgueirei-me para a rua, com duas intenções…. Uma a de sair daquele ambiente deprimente e de não dar ouvidos às conversas mórbidas e miserabilistas , mais as porosas e bolorentas lengas-lengas de lamentos e ais que um posto médico proporciona… A outra era a de esperar a minha esposa antecipando o encontro marcado com aquela, na habitual certeza de que faria as suas compras primeiro, do que eu… as minhas marcações de médico.

Para não ter que “asfixiar” naquele ambiente, vim então para a entrada e postei-me a observar as pessoas quando deparei com uma senhora, de idade, em passo algo determinado, em questiúncula consigo própria sob um qualquer assunto mais incómodo ou de desperdício. Era uma senhora pequena, franzina e a rondar os seus sessentas e tais, bem cuidada e urbana no trajar, jogando por entre uma mão uns papéis quaisquer e na outra, de dedos gesticulantes, os tais pensamentos ou preocupações que lhe faziam o olhar, ora ausente, ora inquisitivo e de quando em vez dando sinais de “aterrar” na realidade por breves e sumidos espaços.

Ao passar por mim, ia dizendo…

- …Uma coisa tão simples e ela (aqui a sua mão virara-se para o edifício da Caixa) não foi capaz de tratar disto!! Agora sou eu que….

Quando estava já quase a passar-me, levava já um passinho da minha pessoa, parou, olhou para mim, sorriu como que a desculpar-se e concluiu.

- …Desculpe-me… sabe? O senhor ao ouvir-me está a pensar que me estou a queixar de algum funcionário aqui da Caixa… mas não… (pelos vistos, coincidência de gesto, nada mais) mas sabe? …é que incumbi uma familiar minha de tratar deste assunto, uma coisa tão simples e afinal, nada fez e agora… sou eu que, com esta idade, ando a tentar resolver… (aqui, novamente um sorriso tentou aplacar o incómodo físico)

Na minha precipitação de ajuizar, julguei que se iria justificar por “ir a falar sozinha” mas não… afinal era para me desvanecer de quaisquer dúvidas a que me tivesse induzido quanto à competência de um qualquer funcionário daqueles Serviços.

Apressei-me a comentar…

- Nem sempre nos ajudam quando precisamos mas… fique a senhora descansada que por mim não estava a pensar em nada, apenas me apercebi que vinha preocupada com algo e detive o olhar… e aliás, não tem a senhora obrigação de se justificar de nada perante ninguém.

Respondeu:

- Pois é mas dá vontade de explicar as coisas… d’estas coisas que nos aborrecem…. Sempre se fala um bocadinho…

Neste instante apercebi-me da importância que tinha, para um pessoa só… pelo menos solitária, a partilha de algo tão insignificante, com alguém que nada significava para ela, a não ser o “outro lado” de um deserto que todo o dia tem que atravessar, onde qualquer um é oásis e pode ser companheiro de viagem, por breves instantes que seja.

Então, conclui:

- Faz muito bem em derrubar essas preocupações, expurgar o incómodo e desabafar… por certo que fica melhor e mais bem disposta… Tenha então um bom dia e que tudo se resolva a contento e não se enerve… tenha mesmo um bom dia…

Um sorriso aberto,

Um ligeiro brilho nos seus olhos negros,

Um retomar de caminho, revigorado… e um expressivo “muito obrigado” e um mais caloroso …”tenha também, o senhor, um bom dia…” e desculpe-me o atrevimento e o incómodo….

Nesse entretanto chegou minha esposa e rumámos para casa…emprestando ao dia uma conversa pegada, sem pressas, nem temas especiais mas repleto de oásis na sua travessia.

26 outubro 2006

SEMENTEIRAS

SEMENTEIRAS

Como sabem a região do DOURO é pródiga na produção de um precioso néctar, enobrecido com o nome Porto e esta cidade igualmente Nobre e Invicta viu o seu nome associar-se a este “embaixador” e com ele cruzar mares e História levando a bons cais e cálices distantes, o veludo e a volúpia de um vinho que, mais que bebê-lo… o melhor é mastigá-lo!...

Mas, como em tudo que é caso, exemplo, citação ou virtude, também nesta região há a excepção à regra. E é a propósito daquela que vive o texto.

Passei uns dias numa quinta, na região de Lamego, numa altura em que se avizinhavam as vindimas num Setembro quente e farto de estio onde só nos últimos dias, a chuva e o vento se fizeram sentir, a lembrar que, afinal de contas, o Outono se estava a vestir em tons castanhos a intrometendo-se no (ainda) verde da vegetação vindimeira.

Privei com o seu proprietário, André Miguel para um vale de terra fértil a Quinta da Burra Leira, um aprazível local cintado de água, ciprestes e oliveiras onde, idilicamente, uma “casa do caseiro” compõe o cenário, que se não desvirtua perante a beleza de um vinhedo forte, vigoroso e bem tratado, vigiado e cuidado, tendo como melhor cartão de visita a enxertia bem sucedida de pés e mais pés de promissora vinha em pujança.

Guiado por aquele tive a oportunidade de “visitar” a quinta, ouvir atentamente os seus comentários, dicas e explicações sobre o actual estado do vale, mais as análises ao sector, à crise do Vinho do Porto e seu instituto e por via de tudo isto chegamos à zona de excepção. A chamada APA – Área de Plantio Alternativa que, num futuro breve, poderá vir a ser motivo do apodo de “zona económica de excepção” tal a expectativa de lucros e proveitos face aos resultados.

André Miguel mostrava-se entusiasmado:

- Olhe aqui… toda esta extensão de terreno, a perder de vista por quem está fora da quinta, mas pertinho de nós, está juncado com hastes de pimentos, em três regueiros. Ao todo tenho uma produção de milhares de pimentos, centenas direi mesmo…e com cuidado e pormenor, até digo mais…. Para aí uns dez a doze pimentos.

Fiquei estupefacto e maravilhado com esta alternância de cultivo… quantas toneladas de produto projectadas nuns quantos quilos redundariam num fartote de alguns gramas da verde fibra, lindo!.....

-Aqui na Burra Leira desenvolvi outro projecto… venha cá!... Uma maravilha!.... E levou-me a outra impressionante área de cultivo enquanto cortava uma ou outra erva daninha com a sua enxadita.

- Veja aqui!... O que lhe parece?.... São chilas, são chilas, meu amigo ….

Sem palavras espraiei o meu olhar pela vastíssima área onde uma vastíssima vegetação de folhas entubadas, rasteiras, em teia por entre a vegetação, faziam jus às protuberâncias verdes pintalgadas e laranja forte dos caules pendentes, que por certo seriam, a futuro imediato, um autêntico toque de Midas na sua economia. Mais do que uma enorme produção de umas quinze ou vinte…. Chilas… Mais do que umas cinco ou seis… em tamanho razoável de consumo (o plantio fora d’época não perdoou) estava perante um verdadeiro “jardim suspenso” de um socalco para outro nuns formidáveis dois a três metros quadrados, prenhes de esperança.

A este propósito vem a terreiro a pessoa da senhora sua esposa Dª Magda Rita que, gentilmente, me confiou.

- Saiba que as expectativas do André Miguel foram tais que o levaram, numa cuidada gestão de stocks, à priori, a dizer aos seus amigos mais privilegiados (por estimados e merecedores da sua safra) para na lista das compras não incluírem as chilas que ele, de bom grado e satisfação, lhas ofereceria. Afinal de contas a produção dava para “dar e vender”.

E assim em silêncio fiquei cogitando com a reviravolta que o sector agrícola e vitivinícola da região levariam perante estas experiências e no regresso a casa pensei… As pipas de “benefício” que se cuidem…. Os cartões tipo a b ou c que se cuidem… a breve trecho deixarão de fazer parte do alfabeto… ai isso sim!.... A par destes cultivos Dª Magda Rita ainda concluiu: - E os tomates do meu homem? Viu? Plantou para ali uma tomatada tal que só rivaliza com a pepinada que lá pôs.

Soube ainda de outra experiência sementeira.

Dizem as (más ou boas?) línguas que naquela mesma quinta se ensaiou a reflorestação com castanheiros. Eu, nunca os vi, embora à distância geográfica e temporal me ocorra agora lembrar ter ouvido, numas vezes, noutras… sentir, o cheiro das castanhas na quinta do André Miguel…

Ele era lá cada “castanha”… puff !!

Nota do autor em informação de última hora:

Afinal… as chilas… eram abóboras…

25 outubro 2006

REESCREVENDO A HISTÓRIA II

D. DINIS E O MILAGRE DA RAÍNHA

Quem não se lembra de uma das páginas mais românticas da nossa História… não aquela do amor impossível de Pedro por Inês – carregado de dramatismo – mas sim a de um milagre doce, por causa dos pobres e por causa da bondade da esposa do nosso rei D.DINIS.

A sua bondade contrastava com a personalidade firme do rei, mais virado para poemas, plantios e projectos de pinhal, nada sensível às carências dos seus súbditos, em especial aos sem abrigo e miseráveis de outras pobrezas.

Pois bem:

Continuando a reescrever a história eis - nos chegados a tão edificante momento.

D.DINIS vive e reina, preocupado em cálculos e projectos de florestação do seu condado, atento à invasão das areias por devastações dunares e aos graves problemas da extração das mesmas no seu rio, aquele que lhe permite acolher em suas adegas o precioso vinho néctar ( que hoje se chama “do Porto” ). Por outro lado, tem ainda tempo para as artes… para a poesia e suas musas e à noitinha para a sua arte maior que é a de “torrar café”… É vê-lo sentado no seu trono inclinando a “coroa” luzidia aos presentes, tão brilhante quanto o seu ceptro e até um pouco tostadinha pelo sol…um regalo.

Pouco tempo tinha para a sua rainha e seu castelo, deixando que esta zelasse pelo seu funcionamento e seus infantes. Dª Margarida de Bugalheira distribuía, portanto, o seu tempo entre a família, o castelo e os seus pobres… estes o mote de tão suave milagre.

D.DINIS, por força das suas preocupações tornara-se ríspido, irritadiço e muito pouco paciente e não concordava com aquele tão humano e tão altruísta gesto de Dª Margarida por tantos e tais desvalidos.

Foi por isso que um dia, naquele lindo e abençoado dia de exaltação dos sentidos, cruzando-se com a matriarca de Bugalheira no Pátio das Manobras, junto à Alameda dos Limões, reparou no seu volumoso braçado e esta ao ver o seu senhor, já com tão duro cariz, apertou ainda mais o seu colo tentando esconder o pão que levava para os seus pobrezinhos.

Perante tamanho volume (e esforço de o dissimular de sua amada) D. Dinis endureceu ainda mais o sobrolho e porque ao momento se entregava à musa da poesia, disparou à queima-roupa….

ONDE IDES SENHORA MINHA

QUE ANDAIS EM TÃO LEVE PASSO

VÓS QUE VINDES DA COZINHA… (DIZEI – ME, DÚVIDA MINHA)

QUE LEVAIS EM RECATADO REGAÇO?

POR CERTO, POR ACTOS NOBRES

POR MISERICÓRIDA E BOA ACÇÃO

NÃO ME DIGAIS SENHORA, QUE LEVAIS AOS VOSSOS POBRES

QUILOS E QUILOS DE PÃO…. OUTRA VEZ, NÃO!

VEJO-VOS AGORA ESFORÇADA

OFEGANTE E ANSIOSA

QUE OUSO, ANTES DE MAIS

PEDIR-VOS QUE MOSTREIS… DE UM GESTO SÓ, DE ASSENTADA

O OBJECTO DE CARGA TÃO VALIOSA…

Ao que responde Dª Margarida de Bugalheira

SENHOR MEU… SENHOR DOS MEUS ALENTOS

QUE VOS POSSO OCULTAR?

FALAIS DE PÃO NO MEU REGAÇO

NÃO POSSO EU ESCOLHER? NÃO POSSO EU OPTAR?

E SE EM VEZ DESSE PÃO, FOR FRUTA, ARROZ OU ATÉ PIMENTOS?

OU ASSIM VALER A MEU DOENTE BRAÇO?

PEÇO-VOS MELHOR JUÍZO

MEU REI…QUE TÃO BEM OUTORGAS

ATENTAIS A MEU TINO E SISO

NÃO VOS MINTO, NÃO PRECISO, MEU SENHOR

E Abrindo o seu bento regaço….Margarida de Bugalheira revela-se e dá-se o delicado milagre!!!

São abóboras meu senhor !!!!

SÃO ABÓBORAS… MEU SENHOR !!!!!!!

E o Rei poeta lá se foi, contente e rindo troando pela alameda o seu preferido poema…

ONDE IDES SENHOR DOUTOR

COM ESSE PASSO APRESSADO

VOU A CASA DO……………….

SINES E OS SENIS


- Sines
- Doca dos Rebocadores
- 15 Outubro de 2006
- 09,30 horas

Eu e o meu amigo Edmundo Barros aprontamos o material da pesca para passar uma manhã amena em tranquila cavaqueira, beneficiando da paz e sossego que só o mar transmite. O tempo? a condizer! suavemente nublado espaçado a azul por entre os brancos e cinzas e um vento sul, brando, agitando o mar de mansinho.

A doca estava vazia, creio que só nós acreditávamos numa boa safra (a do dia anterior… uma miséria… nada) e isso madrugou-nos. Na enseada, os rebocadores davam o tom azul de outra textura, complementar, à tela.

Edmundo preparava o material e mariscava o aço quando me chamou a atenção para a pequena embarcação que bem parecia à deriva depois de ter sido atrelada por uma outra.

Era uma, de recreio, de uns cinco metros (se tanto) com quatro pessoas a bordo. Uma pequena cana de pesca, ao alto, e o aspecto geral do conjunto indiciava um grupo de experimentados navegadores que (pela enésima vez) iriam fora da barra para mais uma jornada com altas expectativas de pescado. Mas não ….

- Aqueles ali não põem o motor a funcionar !!!

Olhei para o meu amigo, depois para a frente. Para além do motor principal até tinham um outro (mais fraquinho e que me pareceu ser para uma eventualidade) pelo que assumi:

Edmundo… com dois motores, não há problema concerteza.

Mas a verdade é que algo não estava bem e “a boia não batia com a gaivota” (a frase, no mar, ganha esta nuance).

Primeiro: Os “campeões” fartaram-se de dar ao zingarelho, que é como quem diz… puxar ao cordel… bloq, bloq, bloq… e nada. Uma, duas e muitas outra vezesbloq, bloq, bloq….

Segundo: Afinal de contas não seriam “tão” experimentados como o aspecto denunciava. Numa segunda observação deu para perceber que os quatro faziam um esforço para se movimentarem com alguma destreza (naquele espaço, assim exíguo… tsst, tsst, tsst) e quando chegou o momento de pegarem num remo (um só, pequenino) ficamos logo a perceber que o melhor era preferível andar de bicicleta (com os olhos vendados) do que fazer aquela figura.

Terceiro: Numa outra perspectiva, deu para ver que, afinal, a lotação não condizia com o número de lugares no livrete da viatura. Para um embarcação daquelas o quarto ocupante só teria lugar à ré e a dar com os pés, tal como um motor…. fora de borda… isso, isso…a nadar e a empurrar.. vá lá…

Quarto: E para “apimentar” a cena… a água estava mesmo “pertinho” da borda que é como quem diz, se tinha “linha” de flutuação, a mesma tinha sido desviada para o metro da Praça do Comércio.

A tal ponto notório foi o desiquilíbrio da embarcação que um dos “maduros” se dirigiu para a proa sentando-se mesmo à pontinha, na esperança de melhorar o centro de gravidade da coisa…

- Eh pá, ó Próspero… Quanto é que me pagariam para ir para o mar nestas condições?!

- Depois destas tentativas todas, e o que penaram, ainda se arriscam a sair naquele jeito.

- Edmundo, deixa lá…. São mesmo apanhados de todo, estão aqui estão no banho, não tarda.

Foi aqui que me ocorreu a cena do filme O TUBARÃO na qual o biólogo pretende desencorajar os (bravos) locais de saírem para o mar em busca do bicho, nos seus barquitos, e perante o insucesso, exclama, em desalento: Vocês vão morrer, todos!!!!....

E lá foram.

Não é que nós os víssemos a zarpar, não senhor….

É que no entretanto desinteressamo-nos da questão e entregamo-nos denodadamente à faina, razão de ser da viagem, que no fim de contas não deu nem um peixito e nos pôs em “apuros” perante as nossas senhoras. Como justificar à minha Cidália e à Dª Ana a falta do almoço? E já não íamos a tempo de apanhar a peixaria aberta…. Azares.

Vai daí, o tempo passou e nós a esgotar os nossos recursos e habilidade para dar alma ao balde com uns peixitos quando olhei para a entrada da doca e exclamo:

- Edmundo? Olha quem vem ali! – Não me sendo possível evitar uma forte gargalhada – Estes tipos são do caraças….

Então apostámos em observar a cena. Neste ponto, já nos ríamos não pelo que víamos mas por antecipação.

Um pescador no seu barquito, de avental… dos verdadeiros, entrou na doca a rebocar o“catita” de recreio e nele os três marujos agarradinhos à…. Espera lá! Eu disse três? Mas eram quatro? cadê o outro?

O pescador largou a corda, deu meia volta e voltou para o mar enquanto as nossas estrelas ficaram de novo à deriva perto da rampa do clube. Foi nesse momento que as nossas mentes sossegaram…. Afinal lá estava o outro, tolhido e encolhido de todo… mas lá estava. Ia à frente ao lado do piloto, quase imperceptível.

Desenrolou-se de novo a cena do remo… chlap, chlap, chlap… e a custo lá conseguiram acostar à rampa. De imediato o diminuído foi ajudado pelos companheiros e levado para a rampa, onde se deitou, imóvel, à custa de um colossal enjoo… “almareado” como diz o povo, almareado…

Entretanto chegamos à cena maior (para mim) desta aventura!!! A retirada do casco para o seco.

Vai de descair o carro com o atrelado para a água. Lentamente, com prudência e ajudado na manobra por um deles… Venha!!! Venha!!! Venha!!!... Depois com a destreza já imaginável pegaram na cordinha e puxaram o barquinho para cima do (já submerso) atrelado e … (neste ponto, vale a pena referir que o automóvel estava “mesmo” com a traseira “na” água) vão de abrir a porta da bagageira para ser possível accionar a manivela de tracção. Ora, de porta levantada e com o ondular das águas, o mar lá subia parte da rampa…passava a frente do carro… e logo descia lavando pneus e a parte debaixo da viatura (o traseiro… pelo sim pelo não, lavadinho por baixo, como dizia o outro) e eles a dar à manivela…clinck, clinck, clinck e as ondinhas, suavemente, a tirar medidas ao parachoques, para cima… para baixo.... e o barquinho a subir, a subir.

Já falei nos rebocadores, aquelas máquinas infernais (lembro-me do nome de um deles… o Spartacus) que puxam os mastodônticos navios que aportam a Sines, e como estávamos na sua doca, o vai e vem destes era bem regular pelo que, ao momento, eis que entra um revolvendo aquele espelho d’agua e revitalizando o bater das ondinhas, que então sim, invadiam a rampa com gosto, sem quebrar, espraiando-se cimento fora…fshhh, fshhh, fshhh.

E não é que aqueles totós nem isso previram? E não é que as ondinhas galgaram de tal modo que o mar quase, mas mesmo quase, entrou pela mala adentro?

Bom…

Se tivesse entrado (e a bagageira era bem espaçosa) teria provocado uma baixa na maré e aí, talvez tivéssemos tido a sorte de iscar uns peixotes e safar a jorna. Mas não, roçou a matrícula, um pouquinho mais acima talvez e quedou-se por aí…. Foi pena….

Ah!!! Mas já me esquecia!!! Depois de terem retirado o carro, raspando a chapa de matrícula do atrelado pela rampa fora, eis que se levanta (só nessa altura) o esverdeado marujo, a custo e ainda cambaleante, vencendo a inclinação, regressando ao plano vertical assente no horizontal, sem mais ondas…

SINES, lido ao contrário, dá “SENIS” e… francamente, pouco faltou para isso… ancoraram nos totós, e pronto.

05 outubro 2006

REESCREVA-SE A HISTÓRIA - 1ª PARTE

D.Dinis, O Lavrador, vive...
A sua rainha santa - D.Margarida de Bugalheira ( e não Isabel de Aragão, como conta a história ) lá está sempre a seu lado, solícita e paciente, sempre atenta às suas inspirações.
Não se lhe conhece o epíteto de "poeta" mas há quem o tenha ouvido declamar, com algum recato e pudor, diga-se, rima do mais refinado calibre... como aquela que se perde nos tempos... Onde ides, senhor Doutor, com esse ar tão apressado ?? Vou a casa do.... bom, fiquemos por aqui. O mistério daquele seu pudor e recato teve a ver com a presença do seu Infante, D. José de Bugalheira, num lauto jantar com familiares onde, por entre embaraço mal contido, lhe teria sido mui difícil "explicar" o conceito de "garrafa" num contexto erótico-romanceado. Adiante.
Tornou-se, isso sim em "O Lavrador" depois de anos e anos a cavalgar no asfalto.
Eu, cronista e presente na comezaina, tive o privilégio de o acompanhar em ronda aos seus domínios naqueles dias lá passados por nefasta ( mas vencida ) enfermidade da senhora de Bugalheira e assim testemunhar os seus dotes rurais.
Vastas e vastas extensões de abóboras, plantadas nos socalcos de suas propriedades, preguiçosamente estendidas ( foram semeadas fora de tempo ) por entre chão de vinhas e néctares, como se de brincos se tratassem a ornar singelas e delicadas orelhas de damas da corte. Verdes folhas em cascata com pendentes alaranjados fortes e de vários calibres a acariciar os pescoços finos das damas vinhas. A seu lado, as suas plantações de pimentos e tomates, eram simples e tímidas expedições rurais.
Mirando o altivo D.Dinis e vendo o cintilar de felicidade no seu olhar ( ei-lo às sete da matina "cava e rega" diário ) percebe-se a vocação de... " O LAVRADOR ".

04 outubro 2006

Vida de Capelão

O título leva-nos ao tão conhecido fado “RUA DO CAPELÃO” … “ Tenho o destino marcado, desde a hora em que te vi… lá-lá-lá-la-ri-lá-lá….

Mas não.

Isto hoje tem, de facto, a ver com a força do Destino. Mais…. Tem a ver com ele e com o divino patronato, entendendo que um sacerdote é efectivamente, não só um “servo” mas também um fiel empregado do Criador.

Não vem para o caso se auferia o ordenado mínimo ou mais ou se, como em voga na actualidade, estava integrado em algum tipo de agência de emprego repartindo a sua massa salarial da forma mais desequilibrada possível…. Uma para mim !!! Três para a agência !!! adiante ……

De fictício tem os nomes da localidade, do padre, como as coisas se passaram e mais um ou outro interveniente, por uma questão de respeito. De resto aconteceu mesmo, e passo a contar.

Honorato era o padre daquela aldeia. Algures por entre as cordilheiras divididas por um rio serpenteante, vasto e raia natural de duas importantes zonas no Norte do País, o seu “povo” respeitava-o e tinha-o como exemplo a citar quando se falasse dos atributos de um padre.

Em Bancres, mesmo antes da Comissão de Festas do Senhor da Aflição, em importância, o topo das atenções era o Padre Honorato. Havia mais de uma vintena de anos, trinta até, se calhar, que aquele pastor enredava as suas ovelhas nos melhores caminhos para os ovis do Senhor, a esforço de muita prédica, práticas e homilias, isto para lá das prestações sociais e comunitárias que faziam dele mais do que um servo…. Um santo…. Isso sim…

Anos e anos a fio a “dar-se” à sua paróquia e ás suas gentes. Uma missa de graça para isto, uma participação na procissão ( de borla ) para aquilo, uma saída com os confrades da comissão para ajudar n’aqueloutro, uma incessante e ininterrupta voluntariedade para tudo que fosse e dissesse respeito a Bancres… e olhem que tempos difíceis se passaram por aquele lugarejo!!! sim senhor… tempos de fome, falta de trabalho e condições dignas de estar das pessoas, com restritos horizontes e poucos proventos. Basta lembrar que aqueles vinte ou trinta anos de vida e labuta foram testemunhas de uma emigração desenfreada para lá dos Pirinéus, de uma guerra colonial a ceifar vidas e mais almas em três frentes – sem contar com a Índia, antecâmara dos conflitos – e para nem tudo ser mau - … pelo menos promissor, uma revolução dita dos cravos veio dar forma a uma nova forma de vida onde de cravos se passou aos “cravas” dando apenas umas migalhas ao grosso da coluna, para não contestarem muito.

Durante estes bilros que teceram a manta dos dias, até há bem poucos meses, aquele santo… o padre Honorato, lá esteve na primeira linha.

Mas nada disto teria sido possível se ao seu dispor não tivesse um carrito. O seu velho, resistente e sempre fiável meio de transporte que nunca o deixou ficar mal, nunca avariou ou se negou a “participar” no seu missionário espírito. Dizem que, para além das bielas, pistões e demais ferrarias, o seu excelente e espartano comportamento se devia ao pequeno depósito de “ bpf “ que é como quem diz… BentoProtectorFuel que guardava a santificada água tirada directamente da pia baptismal.

E assim foi, todos os dias, todos os meses, todos os anos.

Até que desceu do calendário a data dos ( tais ) vinte ou trinta anos de presença na paróquia que proporcionou ao povo o momento único de poder agraciar e agradecer a tão humilde e singela figura, tanta dedicação e devoção.

O senhor Ezequias mais o Roberto d’Azenha, encabeçando uma sólida e determinada comissão – desta vez não da Aflição mas da (re)compensa(ção) fizeram voto de silêncio entre o povo e este, de alma calada e voz escondida ( Honorato não podia saber ) trataram de fazer um peditório para a “prenda do senhor Padre” sendo o objecto da mesma, imaginem !!!... um carro novo !!!!! Isso mesmo, um carrito novinho em folha para que santo Honorato pudesse, com segurança, andar nas estradas para seu belo prazer ou a desenvolver a sua caridosa, voluntaria e prestimosa actividade.

A assim foi.

Toda a gente deu, uns mais do que outros, uns mais do que podiam, e outros ainda o que não tinham, para lhe proporcionar tal alegria !!!

Festa, foguetes, banda a tocar no coreto e toda a gente, todo o mundo a correr para o adro da igreja, uns a pé, outros de mota, outros de carro e… imaginem… alguns de carreto, para “darem” o seu presente ao “nosso querido” Honorato.

Ele foi vinho, picnicadas, cervejas e festarolas e “torcidas” mal curadas e um “oh!!!!” de pasmo, incredulidade e espanto que deixou o padre quase apoplético, quase a desmaiar, quase a pecar, idolatrando o novo “ bolinhas ” como há muito não fazia para com os seus ícones na casa do Senhor e isso Ele, concerteza, perdoar-lhe-ia.

E foi assim que se eternizou o nome deste padre, desta terra e destas gentes.

Umas semanas depois, antes de vencer uma primeira ponte, o padre Honorato esqueceu-se de uma curva e precipitou-se ravina abaixo, entregando a sua alma ao Criador.

Coisas do destino?

Ajuste de contas patronal?

Injustiça e desperdício?

Gratificação para além da remuneração, dando como bónus uma viagem ao Paraíso?

Venha o diabo e ….. escolha.

25 julho 2006

CONTRASTE

Dias intensos de calor com intenso calor à noite.
Em vez de um "Sonho de uma noite de verão" a partitura foi outra!!!!!
Ocorreu uma tempestade ao cair da noite. Com ela relâmpagos de rancor, inveja e vingança, num ajuste de contas em que ao retirar a faca do corpo ( e da alma ) a mesma cortou com os dois lados da lâmina... ferindo o agressor como o agredido... o inocente\ofendido com o ofendido\inocente, mas rasgou, dilacerou a carne e os sentidos e o mais grave ainda.... fez acordar os etéreos corpos de Pai e Mãe, cujas lage e gavetão de sepultura, tremeram e se deslocaram deixando espaço para que os seus fantasmas assombrassem a minha memória em estertores de espanto e do inusitado por tudo o que aconteceu nesta noite.
Quixotescamente, de lança em punho, alguém avançou para os seus fantasmas mas para um campo de batalha diferente, errado... daquele onde os seus moínhos rodavam, enfunando nas sua velas os pretensos acessos de loucura, violência e frustação, pós traumáticos de um stress que ninguém quis mas que a alguém a sina e a desdita lançou, qual maldição??
Sonho foi quando acordei nessa noite e enquanto experimentei a sensação de ter estado a sonhar algo desagradável.... alívio afinal !!! Pesadelo foi quando no torpor do acordar entrei no estado consciente e me confrontei com a percepção de que, afinal, tudo fora verdade e que no dia seguinte o amanhecer iria ser igual a todos os outros mas não mais o mesmo... bem diferente por sinal....
O jovem milícia que rufava o tambor levando (d)os ventos de guerra não se encontrava lá.... Uma viseira fechou o elmo e fez-se á carga escolhendo o alvo que ao acordar nunca supôs vir a ser nem um tambor de campanha nem um bombo de festa.... porque esta nunca houve.
Fez-se a tristeza e caiu o pano.

17 julho 2006

A sina de um nome

Próspero é um nome igual a tantos outros, incomum é certo mas recenseado nas listas telefónicas onde, particularmente, é citado como último.
Um pouco contra a regra o meu é o primeiro, daí que mais dúvidas suscita aquando da apresentação e a sua manipulação mental traz momentos engraçados... eis alguns...

Próspero de tal e tal, muito gosto.....

..... e em resposta...

- igualmente senhor Procópio
- muito gosto senhor Prospério
- o prazer é meu senhor Próprio
- que nome engraçado... Crósquero
- esteja á vontade senhor Fósfero
- sente-se Frósfrinho
- Olha o Popinho
- Como ??... Próstero ??...
- Pergunte ali ao Próspe
- Próspru... que nome....

e por aí adiante, caso a memória me devolvesse outros momentos "castiços"por força das circunstâncias mas....

a última aconteceu por altura do aniversário da minha filhota mais nova, neste fim de semana.

Privando com determinada pessoa com quem tinha estado há cerca de um ano esta, de copo na mão dizia-me.... Então, deite lá aqui um pouquinho de espumante... senhor Nhocópio !!!... se faz favor.

E sem favor mas com uma (contida) vontade de me rir, lá a servi, ciente que este não será o último... não senhor....